As empresas querem profissionais com conhecimento em gestão socioambiental

 

 
Joana d’Arc Bicalho Félix é mestre em planejamento e gestão ambiental, professora de pós-graduação e consultora em gestão de marcas, responsabilidade social e desenvolvimento sustentável.

 

PING-PONG

 

 

O momento atual


As empresas estão em franco processo de mudança. Contratam consultores, enviam seus profissionais para capacitação, e exigem que os novos contratados compreendam da gestão que tem por base a responsabilidade socioambiental. Querem que seus colaboradores modifiquem rapidamente as áreas meio e fim da empresa, propondo e incorporando tecnologia sustentável, processos e procedimentos ambientalmente corretos, com vistas a obter ganhos econômicos e de imagem de marca.

 

 

Consumidor consciente


O que move as empresas não é somente o coração. Nas pesquisas dos meus alunos, chegamos a resultados que demonstram um consumidor cada dia mais exigente. Em Brasília, 82% dos consumidores das classes A, B e C entre 18 e 40 anos afirmam já ter refletido sobre o fato que, ao fazer compras, também compram embalagens que se tornarão lixo em poucos dias. Em outra pesquisa, 54% dos consumidores demonstram que, no ato da compra, optam por produtos que são anunciados como ambientalmente corretos.

 


O papel de cada um


60% do volume na compra do seu carrinho de supermercado será lixo em pouquíssimos dias. Atualmente os catadores, organizados em cooperativas, ou não, são os grandes destinadores de resíduos no Distrito Federal. Se você visitar o lixão, vai ver que os caminhões jogam montanhas de lixo que não foram coletados corretamente. Está lá tudo misturado. Os catadores abrem rapidamente os sacos e tentam separar latas de alumínio, papel, papelão, garrafas PET e outros. Se a pessoa separar o lixo em casa, mesmo que não haja coleta seletiva na cidade, facilita a vida dessas "formiguinhas trabalhadoras" que nos ajudam a sanear o planeta. Esse catador está fazendo o nosso papel. É hora de juntar esforços para a mudança. Mais uma vez, as pesquisas demonstram que empresas e governo são chamados à ação, e passam a ser mais aceitos e bem quistos quando demonstram assumir o seu papel com a qualidade de vida presente e futura. E não se deve esquecer que o Reuso, e a Redução são metas individuais que devem anteceder a Reciclagem.

 


A reciclagem


O grande problema da reciclagem hoje em Brasília e no Brasil diz respeito à logística reversa. A embalagem que você descartou, precisa ter uma destinação correta. Tecnologias de reciclagem já existem, e mercados informais tentam assumir a cadeia de distribuição reversa dos resíduos. A empresa precisa oferecer refil, embalagens com menor impacto ambiental, linhas de produção menos poluentes, adoção de tecnologias limpas.. Precisam se responsabilizar pela criação não só do produto, mas dos subprodutos e resíduos que geram. Uma marca impressa numa embalagem vai levar até 200 anos para se decompor, deixando para a posteridade a visibilidade do impacto ambiental que causa. Os consumidores já "linkam" a imagem desta marca como de pouca responsabilidade socioambiental. Com isto, algumas empresas já colocam containers nas portas dos mercados recolhendo suas embalagens para reuso ou reciclagem; fazem parcerias com ONG's para que reciclem seus subprodutos, ou oferecem refil como diferencial competitivo "é bom para você... é bom para o planeta".

 


Ganhos para a empresa


A ampliação de consciência do consumidor faz com que já haja preferência pelas marcas ecologicamente corretas. As empresas com gestão ambiental têm oportunidade de exportação; melhores taxas nos bancos; o status do brinde ecologicamente correto, como exemplo as ecobags,  e do material publicitário em  papel reciclado mostram que os empresários percebem a necessidade de traçar um planejamento estratégico que leve em conta questões ambientais, econômicas e sociais. Os empresários sabem que a matéria-prima vai escassear e se tornar mais cara, e, assim, precisam se adequar para não perder mercado. Hoje já está provado que trabalhar com a responsabilidade social e a gestão ambiental reduz custos e otimiza resultados econômicos. A empresa ambientalmente correta está mais próxima do eficiente e do economicamente rentável. No momento em que se instituem na empresa processos e procedimentos com base na sustentabilidade e gestão ambiental, minimizam-se custos.

 


Mercado secundário


O que antes era lixo, hoje é matéria prima para mercado secundário. Tudo vira tudo. É uma questão de destinação. É ganho econômico para o mundo. É preciso valorizar o subproduto. A empresa estão no seguinte momento: quer mudar e capitalizar com isso, desta forma, estimula o uso do verso do papel, minimiza o gasto de tinta nas impressoras, doa ou vende excedentes de móveis ou equipamentos otimizando espaços. Dá preferência a fornecedores e produtos ambientalmente corretos. Troca copos descartáveis por canecas individuais. Abole o envelope em troca de pastas "vai-e-vem". Troca equipamentos que exigem muito recurso energético. Prefere alugar a comprar equipamentos que usa pouco. E tudo isso vai ao encontro de um mercado secundário que se forma: as cooperativas, autônomos ou pequenos empresários não estão atrás de doações. São parte do mercado. Elas querem comprar mesmo o papel de descarte, o ferro, a lâmpada fluorescente. Tecnologias limpas rendem  dinheiro.

 

 

Moda ambiental


As empresas já percebem a pressão e sabem que é preciso ampliar. Ter um banco que emite talão de cheque com papel reciclável é pouco. O consumidor passa a ver isso como uma obrigação e cobra mais. Assim, as empresas passaram a ter a necessidade de buscar novas soluções para os problemas ambientais, num processo de melhoria contínua. Precisam vender e cada vez mais, de uma forma que não agridam tanto o meio ambiente. Mas como vender e preservar? Descobriu-se que falar ter uma boa gestão ambiental agrega valor de imagem. Hoje é chique comprar uma calça jeans com tecido ecoDenin,  reciclado. Diminui a culpa do consumidor, saber que aquela marca utiliza processos ambientalmente corretos, ao mesmo tempo que destina parte da verba para projetos e ações de inclusão social. A partir do momento que as pessoas começaram a sentir culpa por detonar o meio ambiente, passaram automaticamente a cobrar das empresas posturas de respeito com a natureza. Não dá mais para retirar dela tudo o que se precisa e jogar fora o "bagaço". O consumo dos recursos naturais supera em mais de 20% a capacidade da terra de regenerar-se.

 

 

Marca ambiental


Ao se criar um refil e estimular o consumidor a comprá-lo, emite-se a imagem de marca preocupada com o meio ambiente. Ao mesmo tempo, fideliza-se o cliente. E ainda, reduz o custo final do produto, tornando-o mais competitivo no mercado. Uma grande marca hoje não vende só o produto ambiental. Se ela fizer isso, ela quebra. Ela aproveita a força de marca que possui, e cria extensão de linha propondo a versão ambientalmente correta. Ela forma o consumidor. Há quatro anos, ninguém falava em usar papel reciclável. Era feio, caro... Hoje, além de demonstrar status e responsabilidade socioambiental, seu preço é o mesmo da resma de papel alvejado. Chique hoje é ser ambientalmente correto e o consumidor concorda em pagar um pouco mais para incluir socialmente uma comunidade ou para preservar o meio ambiente. As pesquisas locais e nacionais apontam isso. Ele quer que o filho dele tenha a cachoeira que ele teve. Ao agregar status e imagem ambiental ao produto, a empresa distancia-se positivamente das marcas que não seguem a mesma direção.

 

 

O novo profissional


O empresário precisa vender e estimular o consumidor a comprar para obter desenvolvimento econômico. Mas como fazer isso, se não terá matéria-prima daqui a cinco, dez anos? Entra aí o planejamento estratégico. Até quatro anos atrás nem se pensava em falar na graduação e na pós-graduação sobre o papel do gestor na responsabilidade social e no desenvolvimento sustentável. O interesse do mercado era o compromisso econômico. Hoje, todo mundo quer fazer o certo, até porque o certo é economicamente viável, quanto mais incluir socialmente pessoas, mais poder de compra se cria. Essas pessoas passam a ter dinheiro para consumir. Mas ninguém estava preparado para resolver esse problema. E as universidades perceberam a necessidade de preparar o gestor, o profissional da pós-graduação para interferir na empresa em que ele vai trabalhar.

 


Gestão integrada


O gestor da empresa precisa ter a informação acerca do papel dele na gestão de imagem daquela marca, não importa se ele é do marketing, do financeiro ou do RH. Se o financeiro não comprar de um fornecedor que recicla, o marketing não tem este diferencial a comunicar. Só se agrega valor de responsabilidade socioambiental, se os gestores compreendem os processos e procedimentos de gestão, bem como percebem técnicas de sensibilizar os colegas da empresa para a mudança de comportamento. Hoje o que mais se busca no profissional é que tenha conhecimento em gestão com base em responsabilidade social e desenvolvimento sustentável. Esses profissionais são as pessoas-chave na empresa, porque as pesquisas já apontam o consumidor que boicota marcas que impactam o meio ambiente. A chave do sucesso é o como fazer.

 

 

Futuro do planeta


Mudar comportamento é difícil. Mas nós não temos outra saída. Compreender que a natureza é finita causou medo e o entendimento dos ganhos em mudar. Se pensarmos que as informações dos últimos cinco anos, nos fizeram questionar assuntos ambientais e sociais que não se falava há 500 anos ficamos otimistas. Outro ponto positivo é o fato de que as empresas descobriram que é economicamente viável trabalhar com responsabilidade socioambiental. Que isto passou a ser um bom negócio. O consumidor está com medo e pressiona a empresa. Só me deixa pessimista saber que o nosso tempo é curto. Temos de mudar rápido. As perdas ambientais de um ano para outro são muito grandes. Mas também sabemos que a crise cria oportunidades antes inimagináveis. Façamos todos a nossa parte em casa e na empresa, assim, de célula em célula não justificando nossas falhas pelas ações não feitas dos outros.